sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sobre o uso de "quando ter"

       E-mail de Cristóvão Sarmento: “Professor, li numa matéria sobre um medicamento para impotência sexual: ‘Por ser ingerido diariamente, não é preciso calcular quando ter relação (os outros remédios exigem um tempo para fazer efeito)’. Depois de ‘quando’ o certo não seria ‘tiver’?”

   A frase está correta, Cristóvão. O vocábulo “quando” nesse contexto não é conjunção, e sim advérbio. O redator afirma que, ao contrário de outros medicamentos, esse remédio pode ser ingerido sem que se precise calcular o momento adequado para ter relação.


    A oração iniciada por “quando” não é temporal, mas objetiva direta. Caso ela indicasse uma circunstância de tempo, o período ficaria lacunoso pois não se saberia qual o objeto do verbo calcular. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A flexão de "todo-poderoso"

           Pergunta de José Fernandes, via Facebook: “Professor, o certo é ‘Todo-Poderoso’ ou ‘todo poderoso’, quando se referir a Deus? Uma professora me disse que seria ‘Todo Poderoso’”.
 
        “Todo-poderoso” é um adjetivo composto e, como tal, leva hífen. Quanto à flexão, mantém invariável o primeiro elemento, que equivale a um advérbio. Exemplo: “Ele é o todo-poderoso (Ela é a todo-poderosa) chefe da repartição”.
 
      Substantivado, equivale a Deus: “Precisamos crer no Todo-Poderoso”. Não existe o substantivo “Todo Poderoso”.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Correlação verbal em questão de concurso


          Em prova elaborada pela Esaf  para Auditor da Receita Federal, a banca pede que o aluno leia o seguinte fragmento do filósofo Gerd Bornheim: "O advento da moderna indústria tecnológica fez com que o contexto em que passa a dispor-se a máquina mudasse completamente de configuração".

         Em seguida pergunta se se mantém a coerência da argumentação ao substituir-se "fez" por "faz" – desde que também se substitua "mudasse" por "mude".

         A resposta é que se mantém, sim. No âmbito da flexão verbal, o perfeito do indicativo se correlaciona com o imperfeito do subjuntivo (fez – mudasse). E o presente do indicativo, com o presente do subjuntivo (faz – mude). Não posso escrever, por exemplo: "A perspectiva do prêmio faz com que ele estudasse"; o correto é "estude". (Mais questões comentadas em http://www.chicoviana.com/concursos.php.)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tendência do português a tonificar os pronomes oblíquos

        Michelle Colombo, de Limeira (SP), envia-nos questão “polêmica” de concurso para a prefeitura de São Paulo. A banca pede que o candidato assinale o comentário correto para justificar a próclise em frases do tipo “Me dê um copo de vinho!”. Lembra que muitos gramáticos contestam esse tipo de construção com base na regra de que não se inicia frase com pronome oblíquo átono.

        A candidata marcou a alternativa “a”, na qual se afirma que “os gramáticos estão corretos já que, de fato, os pronomes átonos só podem ser empregados encliticamente”. A banca considerou certa a alternativa “d”, segundo a qual “a regra indicada está perfeitamente correta, mas não se aplica ao pronome da frase, que é tônico na pronúncia brasileira, e não átono”.

       A alternativa que a candidata marcou está errada, pois os pronomes oblíquos podem ser usados tanto em próclise, quanto em ênclise (“Dê-me um copo de vinho”) ou mesmo em mesóclise (quase fora de uso). Só que a ênclise é comum no português de Portugal. Entre nós, devido à tendência a tonificar os pronomes, a preferência é pela próclise. Está, pois, correto o gabarito.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A regência do verbo "preceder"

           E-mail de Alex M.: “Professor, várias questões de residência médica usam o verbo ‘preceder’ sem nenhuma preposição depois. Exemplo: ‘Maria precede João, ou o crescimento de Maria precede o de João’. No meu entender Maria está vindo primeiro, ou crescendo primeiro. Mas nas vezes em que respondi às questões com esse entendimento, errei. Por quê?”

         Caro Alex, o verbo “preceder” é transitivo direto e significa “vir antes” quando dá ideia de posição (temporal ou espacial): Por exemplo: “O artigo precede o substantivo”; “O inverno precede a primavera”.

          No sentido de “ter prioridade”, “ter precedência”, “superar”, esse verbo é transitivo indireto, ou seja, rege complemento preposicionado. Assim, o correto é “Maria precede a João nos exames de anatomia”. 

domingo, 16 de junho de 2013

Flexão do verbo "ter" com o sentido de "existir"

       E-mail de Jacqueline Santos: “Na frase ‘Tem coisas no texto que eu pratico constantemente’, o verbo TER tem acento ou não, ou seja, vai para o plural?”.
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        Nessa frase o verbo “ter” não leva acento, pois está na terceira pessoa do singular. Equivale ao verbo “haver” com o sentido de “existir” (Há coisas...). Com esse sentido ele é impessoal, ou seja, aparece numa oração sem sujeito (“coisas” é objeto direto). Consequentemente, não tem com quem concordar.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Quando usar "Ter que" ou "Ter de"


          E-mail de Graça Viana: “Professor, quando usar ‘tenho de’ ou ‘tenho que’. Exemplo:  Tenho de preparar o jantar, ou   Tenho que preparar o jantar?”
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            É possível usar qualquer das duas formas. Nesse caso o “que” é preposição, ou seja, equivale mesmo a “de”. Ligado ao verbo “ter”, adquire o valor de um auxiliar modal, que acrescenta ao infinitivo a ideia de obrigatoriedade.