quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Sobre os verbos terminados em "guar", "quar", "guir" e "quir"


Bom dia, caro professor, já agradecendo sua enorme disponibilidade para dirimir dúvidas sobre a língua portuguesa, estou aqui com um impasse. Sabemos que há variação na pronúncia dos verbos terminados em GUAR, QUAR e QUIR, como aguar, obliquar, delinquir. sabemos ainda que se forem pronunciados com "A" ou "I" tônicos, essas formas devem ser acentuadas, como em ENXÁGUO, DELÍNQUO. Mas se forem pronunciados com "U" tônico, deixam de ser acentuados, como em "enxagUo", "delinqUa". Pois bem, minha dúvida é a seguinte: No caso de se pronunciar com "U" tônico, como são consideradas oxítonas, e sabendo-se que o "A" sempre será vogal e que não existe mais de uma vogal na mesma sílaba, como se resolve esse impasse, pois o "U" é tônico? Nos dois casos elas são paroxítonas ou apenas quando são ecentuadas?

Raimundo Gomes
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         Alô, Raimundo!  

      As formas verbais a que você se refere apresentam, de fato, mais de uma pronúncia e mais de uma grafia. É importante ressaltar que isso ocorre apenas nas chamadas formas rizotônicas do presente do indicativo e do subjuntivo (uma forma rizotônica é aquela em que a sílaba tônica está contida no radical, ou seja, na parte do vocábulo que contém o sentido).
      Assim, pode-se pronunciar (e escrever) “enxaguo” ou “enxáguo”, “delinquo” ou delínquo. Em “enxaguo” e “delinquo”, o “u” é vogal tônica na penúltima sílaba (em-xa-gu-o, de-lin-qu-o); antes da Reforma esse “u” recebia um acento agudo. 
     Já em “enxáguo” e “delínquo”, o “u” aparece como semivogal de um ditongo crescente (en-xá-guo, de-lín-quo). Nesse caso, para que se mantenha o ditongo e as vogais “u” e “o” não formem hiato, marca-se com acento agudo a penúltima sílaba.
      Não entendi bem sua dúvida. Você afirma que, no caso de o “u” ser  tônico, o vocábulo passa a oxítono. Não é verdade; ele se mantém como um paroxítono. Depois você sugere que a letra “a” (obviamente em “enxaguo”) faria parte de um ditongo. O “a” nada tem a ver com o grupamento vocálico final, que como se viu constitui um hiato. 
      Não sei se deu para esclarecer. Caso suas dúvidas persistam, não hesite em escrever novamente.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A posição do sujeito na ordem direta


Professores como colocar a oração na ordem direta sem saber o sujeito?ou tipo quando agora oração é muito longa qual forma eficaz de achar o sujeito.

Michael Alves

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Alô, Michael!

         E impossível colocar uma oração na ordem direta sem conhecer o sujeito.   O motivo é simples: a ordem direta é aquela em que o sujeito encabeça o enunciado oracional. Consiste, grosso modo, em você enfileirar os termos na sequência “sujeito + verbo + mais complemento (objeto) + mais adjunto adverbial”.
         Isso leva à segunda parte da sua questão: como identificar o sujeito. Uma dica é fazer as perguntas “quem é que” ou o “que é que”. Vou dar um exemplo com um tipo de frase em que geralmente há dificuldade de proceder a essa identificação: “Cabe aos professores a luta por melhores condições de ensino”.  Qual o sujeito? Vamos à pergunta: o que é que cabe aos professores? Resposta: “a luta por melhores condições de ensino”. Na ordem direta, a frase fica assim: “A luta por melhores condições de ensino cabe aos professores.”  
         Lembre-se de que o sujeito é o termo ao qual o verbo se refere e, por isso, deve (o verbo) concordar com ele (sujeito). Numa frase como “Deu trabalho as buscas pelos sobreviventes do naufrágio”, a flexão de “deu” no singular está errada – e você já é capaz de me dizer por quê. Deve ter feito a pergunta que indiquei acima: “o que é que deu trabalho?” As buscas, claro. Logo, “deram trabalho as buscas pelos sobreviventes no naufrágio”. Na ordem direta, o termo “as buscas” encabeça a frase.

domingo, 23 de junho de 2019

Sobre a impessoalidade (e a pessoalidade) do verbo "haver"


Professor como saber se o verbo haver tem o sentido de 'ocorrer” e “existir” que nesse caso ele é impessoal e quando ele não tem o sentido de 'ocorrer” e “existir” que ele não é impessoal.

Rodrigo Sampaio
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       Alô, Rodrigo!

O contexto é que mostra em qual sentido esse verbo está usado e, consequentemente, se o seu emprego é pessoal ou não. As acepções em que há sujeito vinculam-se à ideia de “ter” (obter) ou “experimentar” (lembre-se  de que é possível substituir o verbo “ter” por “haver” nos chamados tempos compostos). Dois exemplos do emprego pessoal: “Ninguém houve notícias da prisão do traficante”; “Os meninos houveram muito medo de entrar na caverna”. São construções raras e praticamente abolidas do registro coloquial, em que há larga prevalência do verbo “ter”.
“Haver” também é pessoal quando vem acompanhado de pronome (parte integrante do verbo); nesse caso, tem os sentidos de “portar-se,” “prestar contas”, “lidar”. Confira os respectivos exemplos: “Joaquim se houve bem no encontro social”; “Por não respeitar o regimento, vai-se haver com o diretor”; “É ruim ter que se haver com pessoas  temperamentais”.
A impessoalidade (ausência de sujeito) se dá quando esse verbo tem o sentido de “existir”, “ocorrer”, ou indica tempo decorrido.  Exemplos: “Há pessoas que não merecem o nosso respeito”; “Não haverá torneios na próxima estação”; “Há dias que ele não visita os pais”. Escrevi no plural os objetos diretos (pessoas, torneios, dias) a fim de chamar a atenção para a invariabilidade da flexão dos verbos, que ficam no singular por um motivo  óbvio: se não há sujeito, eles não têm com quem (ou com o quê) concordar.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O motivo do acento de "veículo"


        Professor qual a razão do acento de veículo? Há bancas que justificam o acento por ser uma palavra proparoxítona. Outras dizem que o motivo é existir uma vogal tônica de hiato. Gostaria, se possível, de um esclarecimento. Obrigada.
Luísa Torres
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          Como vai, Luísa?
         O acento de “veículo” não ocorre por nessa palavra haver um hiato. A função do acento na chamada vogal tônica dos hiatos é que esses encontros vocálicos se transformem em ditongos.  Sem o acento, por exemplo, os vocábulos “sa-ú-de”, “ra-í-zes” e “mi-ú-do” têm a seguinte divisão silábica: “sau-de”. “rai-zes” e “miu-do”.  Ou seja, há ditongação das vogais. Essa possibilidade não existe em “veículo”. Caso se retire o acento, o hiato se mantém (ve-i-cu-lo), e a palavra passa a soar como um paroxítono. Assim, “veículo” se acentua unicamente por ser um vocábulo proparoxítono.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Dúvida sobre generalização a partir de uma questão da Vunesp



2019 VUNESPUma expressão que atribui à frase um tom de generalização está destacada entre parentes em: A Há que se dizer que culpar terceiros (sempre) nos traz alívio. (1º parágrafo) B (Um dos )maiores responsáveis por alagamentos nas cidades é o lixo... (2º parágrafo) C Nos dias de hoje coletamos informações (prontas)... (3º parágrafo) D ... cotidiano agitado e( quase) atropelado pelo que não nos afeta... (3º parágrafo) E ... quase atropelado pelo que não nos afeta tanto (por enquanto). (3º parágrafo)
Laura Silva
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          Bem-vinda, Laura.
          Generalizar é considerar que determinadas características ou ações se aplicam a todo um conjunto de pessoas. Pode constituir uma grave falha na argumentação, pois não leva em conta as possíveis exceções. Basta que uma delas ocorra para fazer o argumento ir por terra.
         Generalizar é também tratar subentendidos como pressupostos. Um exemplo: numa redação sobre o trabalho da mulher fora de casa, um de meus alunos se posicionou contra, alegando que esse tipo de atividade prejudica a educação dos filhos. Ele pressupôs como verdadeiro algo que subentendeu (apoiado numa visão machista, por exemplo), como se todo subtendido não dependesse de uma interpretação pessoal. Essa era a opinião dele, que não tinha o direito de generalizar.
          Já deu para você perceber que a resposta à questão está na letra “A”. O advérbio “sempre” dá como genérica e inevitável a afirmação de que pôr a culpa em terceiros nos traz alívio. Pode às vezes não trazer... A propósito, será que traz mesmo? A banca dá uma mãozinha quando apresenta na resposta uma formulação que é por si questionável do ponto de vista ético e existencial. Culpar terceiros não deixa de ser uma maneira de transferir aos outros as nossas responsabilidades.


Sobre o tipo de letra na redação



Olá, boa tarde! Gostaria de tirar uma dúvida
Minha dúvida é em relação à escrita na redação. Tipo, minha letra é misturada, eu utilizo tanto letras de computação como letras cursivas. Isso é proibido em redação? Existe uma norma que proíbe isso? (não sei se o nome que se dá a essas letras são essas que citei).
Michel Filipe 
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          Alô, Michel.

         A dúvida comum dos estudantes quanto à letra com que devem fazer a redação é se utilizam o cursivo ou a caixa-alta. A letra cursiva, como o nome diz, é a letra que corre. Com ela se produz a maior parte dos textos manuscritos. A caixa-alta corresponde à escrita com letras maiúsculas. As bancas aceitam os dois tipos; o importante é que o texto seja legível. Há pessoas que, ao escrever em cursivo, produzem garranchos que ninguém consegue entender (às vezes, nem elas próprias). Nesse caso, o melhor é usar a caixa-alta. Recomenda-se, no entanto, que o aluno sublinhe as letras que iniciam os períodos e as dos nomes próprios; afinal há normas para a escrita das maiúsculas, e o estudante deve mostrar que as conhece. 
        Chegamos à sua pergunta, que se refere a uma possibilidade nova: alternar letras cursivas com letras de computação. O Enem não emitiu nenhuma norma que impeça esse tipo de alternância (assim como, a exemplo dos outros concursos, não se manifesta quanto a o aluno usar a letra cursiva ou a de caixa-alta). Deduz-se que nesse exame os corretores aceitam os diferentes tipos de letra. O importante, repita-se, é que o candidato se faça entender. A banca não pode ver com bons olhos os que tornam mais penoso o extenuante trabalho que já tem, e a má vontade decorrente disso certamente influirá no julgamento que fizer deles. O candidato deve escrever com legibilidade para garantir que o seu texto será lido e avaliado com justiça.

Diferença entre homonímia e polissemia


        Na frase "A pata estava com sua pata esquerda machucada" existe homonímia ou polissemia? Poderia me esclarecer melhor com conceitos e exemplos? Muito obrigado!
Raimundo Gomes
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Alô, Raimundo. 
A polissemia consiste na variedade de significações de uma palavra. Entre os inúmeros sentidos de “coroa”, por exemplo, estão o de 1) objeto que os reis portavam (ou portam) na cabeça para indicar soberania e nobreza; 2) parte do dente revestida de esmalte; 3) mulher de idade avançada.   
A homonímia é a coincidência de forma entre palavras devido, em grande parte, a mudanças fonéticas. Como têm origens distintas, os homônimos pertencem na grande maioria das vezes a classes gramaticais diferentes. Por exemplo: “venda”, substantivo que designa a faixa de pano com que se cobrem os olhos, é homônimo de “venda”, 1ª ou 3ª pessoa do verbo “vender”.
São também homônimos “pata”, feminino de pato, e “pata”, “cada um dos apêndices do animal usado para sustentação e locomoção” (Houaiss).  A origem de “pato” é presumivelmente onomatopaica, ou seja, deveu-se à tentativa de imitar determinado som – no caso, o grasnar dessa ave (o povo parece que gosta de fazer onomatopeias com as consoantes “p” e “t”; veja o caso de “patati” - “patatá”). O curioso é que o homônimo desse vocábulo que representa o aparelho locomotor também tem origem onomatopaica; nasceu do propósito de imitar “o ruído do animal em marcha”.