domingo, 2 de março de 2014

Confusão entre o infinitivo e o presente do indicativo

E-mail de D. G. Barreto: “O SBT escreveu: ‘Imagine da noite para o dia você se ver com a responsabilidade de cuidar de um bebê após uma fatalidade’. Não seria 'se vê'?”

O correto é “se ver” mesmo. Esse verbo aparece numa oração objetiva direta reduzida do infinitivo. Se a desenvolvêssemos, teríamos: “Imagine que você se veja...”.


É comum a confusão entre “ver” (infinitivo) e “vê (presente do indicativo). Uma dica para saber a diferença é substituir o verbo por outro em que seja menor a semelhança entre esses tempos verbais; “perceber”, por exemplo.



Você diria: “Imagine você se percebe...” ou “Imagine você se perceber...”? Diria da segunda forma, é claro, pois o verbo está no infinitivo. É nesse tempo que também está o verbo na frase que você transcreveu.



Você diria: “Imagine você se percebe...” ou “Imagine você se perceber...”? Diria da segunda forma, é claro, pois o verbo está no infinitivo. É nesse tempo que também está o verbo na frase que você transcreveu.




domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sobre o esquema tópico-comentário

     E-mail de Valéria X. L: “Professor, não me conformo quando escuto políticos, jornalistas, repórteres falando: ‘A Presidente Dilma ela esteve aqui’, ‘O filme ele foi muito bom’ ‘As crianças elas estão bem’. O pronome não seria uma redundância?”
                                             ****   O uso desse pronome, que ocorre sobretudo na linguagem oral, corresponde à atual tendência dos falantes em estruturar frases segundo o esquema tópico-comentário (em vez de sujeito-predicado).

    Os termos que iniciam as orações aparecem como tópicos, ou seja, como elementos autônomos que são depois retomados às vezes com a quebra da estruturação sintática (anacoluto). Por exemplo: “Aquela moça, não converso mais com ela."


        Você está certa: o pronome é uma maneira de reforçar o tópico.  Na linguagem oral, ele parece defini-lo após uma breve pausa (pausas, hesitações são muito comuns na fala). Já na escrita não há como justificar o pronome a não ser por razões estilísticas. Como neste exemplo de Herculano: “A podenga negra, essa corria pelo aposento.”

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A diferença entre "senão" e "se não"

        E-mail de Raimundo T.: “Professor, como se classifica a palavra ‘senão’ e qual o modo de distingui-la de ‘se não’?”.

        O vocábulo “senão” classifica-se como conjunção alternativa (“Lute, senão você será derrotado”), conjunção adversativa (“Não desejava dinheiro, senão o reconhecimento do seu trabalho”) ou preposição (“Hoje não faz senão chorar”).
 

No conjunto “se + não” aparecem uma conjunção condicional e um advérbio de negação. Está implícito um verbo após esses dois vocábulos: “A aprovação indiscriminada é um procedimento antididático, se não (for) demagógico”.

Sobre o uso de "quando ter"

       E-mail de Cristóvão Sarmento: “Professor, li numa matéria sobre um medicamento para impotência sexual: ‘Por ser ingerido diariamente, não é preciso calcular quando ter relação (os outros remédios exigem um tempo para fazer efeito)’. Depois de ‘quando’ o certo não seria ‘tiver’?”

   A frase está correta, Cristóvão. O vocábulo “quando” nesse contexto não é conjunção, e sim advérbio. O redator afirma que, ao contrário de outros medicamentos, esse remédio pode ser ingerido sem que se precise calcular o momento adequado para ter relação.


    A oração iniciada por “quando” não é temporal, mas objetiva direta. Caso ela indicasse uma circunstância de tempo, o período ficaria lacunoso pois não se saberia qual o objeto do verbo calcular. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A flexão de "todo-poderoso"

           Pergunta de José Fernandes, via Facebook: “Professor, o certo é ‘Todo-Poderoso’ ou ‘todo poderoso’, quando se referir a Deus? Uma professora me disse que seria ‘Todo Poderoso’”.
 
        “Todo-poderoso” é um adjetivo composto e, como tal, leva hífen. Quanto à flexão, mantém invariável o primeiro elemento, que equivale a um advérbio. Exemplo: “Ele é o todo-poderoso (Ela é a todo-poderosa) chefe da repartição”.
 
      Substantivado, equivale a Deus: “Precisamos crer no Todo-Poderoso”. Não existe o substantivo “Todo Poderoso”.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Correlação verbal em questão de concurso


          Em prova elaborada pela Esaf  para Auditor da Receita Federal, a banca pede que o aluno leia o seguinte fragmento do filósofo Gerd Bornheim: "O advento da moderna indústria tecnológica fez com que o contexto em que passa a dispor-se a máquina mudasse completamente de configuração".

         Em seguida pergunta se se mantém a coerência da argumentação ao substituir-se "fez" por "faz" – desde que também se substitua "mudasse" por "mude".

         A resposta é que se mantém, sim. No âmbito da flexão verbal, o perfeito do indicativo se correlaciona com o imperfeito do subjuntivo (fez – mudasse). E o presente do indicativo, com o presente do subjuntivo (faz – mude). Não posso escrever, por exemplo: "A perspectiva do prêmio faz com que ele estudasse"; o correto é "estude". (Mais questões comentadas em http://www.chicoviana.com/concursos.php.)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tendência do português a tonificar os pronomes oblíquos

        Michelle Colombo, de Limeira (SP), envia-nos questão “polêmica” de concurso para a prefeitura de São Paulo. A banca pede que o candidato assinale o comentário correto para justificar a próclise em frases do tipo “Me dê um copo de vinho!”. Lembra que muitos gramáticos contestam esse tipo de construção com base na regra de que não se inicia frase com pronome oblíquo átono.

        A candidata marcou a alternativa “a”, na qual se afirma que “os gramáticos estão corretos já que, de fato, os pronomes átonos só podem ser empregados encliticamente”. A banca considerou certa a alternativa “d”, segundo a qual “a regra indicada está perfeitamente correta, mas não se aplica ao pronome da frase, que é tônico na pronúncia brasileira, e não átono”.

       A alternativa que a candidata marcou está errada, pois os pronomes oblíquos podem ser usados tanto em próclise, quanto em ênclise (“Dê-me um copo de vinho”) ou mesmo em mesóclise (quase fora de uso). Só que a ênclise é comum no português de Portugal. Entre nós, devido à tendência a tonificar os pronomes, a preferência é pela próclise. Está, pois, correto o gabarito.