terça-feira, 27 de setembro de 2016

Sobre o acento de "veículo"

E-mail de Isabel T.: “Professor ‘veículo’ se acentua por ser proparoxítono ou por ter uma vogal tônica de hiato? Meu professor disse que era pelas duas razões, mas eu achei meio esquisito. Poderia me dar um esclarecimento? Obrigada.”
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Cara Isabel, “veículo” se acentua pela única razão de ser um vocábulo proparoxítono. Nele ocorre, de fato, um hiato com vogal tônica (e-í), mas não é isso que leva a que se acentue o “i”. 

Para entender melhor, vamos à regra: acentua-se a vogal tônica dos hiatos para impedir que esse encontro vocábulo se transforme em ditongo;  “saúde”, por exemplo, sem o acento, seria pronunciado com duas sílabas (sau-de).
Esse fenômeno não ocorreria caso se retirasse o acento de “veículo”. As vogais “e” e “i” continuariam formando um hiato (“ve-i-cu-lo”, homônimo da primeira pessoa do presente do indicativo do verbo “veicular”). O que ocorreria, sem o acento, era a mudança da sílaba tônica da palavra, que de proparoxítona passaria a paroxítona.

Essa, por sinal, é a razão pela qual se acentuam os vocábulos proparoxítonos: impedir que eles soem como paroxítonos (“limpido”, em vez de “límpido”; “cumulo”, em vez de “cúmulo”; “rapido”, em vez de “rápido” etc.)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

É correto dizer que alguém "tinha chego"?

E-mail de Joaquim N.: “Professor o verbo chegar tem mais de um particípio? É possível dizer, por exemplo, que alguém tinha ‘chego tarde’? Agradeço o esclarecimento.”
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O verbo “chegar” não se inclui entre os abundantes que apresentam particípio duplo. Tem apenas uma forma no particípio (chegado), que se conjuga na voz ativa com o auxiliar “ter” (ou “haver”) nos chamados tempos compostos (“Pedro tinha chegado cedo”, por exemplo).
Há quem considere “chego” como particípio irregular, no entanto isso constitui um erro (além, claro, de soar mal). Os particípios irregulares (frito, disperso, morto etc) aparecem usualmente na voz passiva (com os auxiliares “ser”, “estar”, ficar”), ou seja, os verbos dos quais constituem os particípios são transitivos diretos. Não é o caso de “chegar”, que é intransitivo e, como tal, não se conjuga na voz passiva.
Mesmo quando aparece como depoente, ou seja, quando tem forma passiva mas sentido ativo, “chegar” não apresenta a flexão “chego” no infinitivo. Diz-se “É chegado o verão”, e não “É chego o verão”.
A propósito, os únicos casos de uso do particípio irregular na voz ativa estão representados pelos verbos “ganhar”, “gastar” e “pagar”. Pode-se dizer, por exemplo, “ele tem ganho (ou ganhado) muito dinheiro”; “seu irmão tem gasto (ou gastado) muito” e “Armando não tinha pago (ou pagado) seus compromissos em dia”. Veja que esses três verbos são transitivos diretos.
Não há elitismo nem preconceito em condenar o uso de “chego” como particípio irregular. Pode-se condená-lo, sim, por resultar de uma falsa analogia (com os verbos transitivos diretos que admitem particípios irregulares) e, sobretudo, por soar mal. Queira-se ou não, a eufonia é um critério que deve ser considerado.
         Ninguém nega a força criativa do povo para modificar a língua (afinal, ele é quem a faz), mas não se deve admitir "qualquer coisa" simplesmente por ela ter origem popular. Afinal a língua tem seu gênio, seus princípios, suas normas, que em alguma medida restringem os usuários em nome da inteligibilidade e do bom gosto. A forma “chego” só existe na primeira pessoa do singular do presente do indicativo (por exemplo: “Eu chego já”). E chega.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"Paralimpíada" ou "Paraolimpíada"?

Sinto-me desconfortável sempre que leio ou falo “Paralimpíada”. Essa palavra nada tem a ver com a nossa língua, pois mutila a vogal de um radical e preserva a de um prefixo. É como dizer “parastesia” em vez de “parestesia” (para + estesia), em que se mantém íntegro o radical de “estesia”. Se alguma vogal tem que cair, é a do prefixo. “Parolimpíada” seria mais aceitável.
O problema não é semântico; é morfológico, com repercussões fonéticas. Nossa língua permite a formação de palavras novas mediante o acréscimo de afixos ou radicais. Sempre que os prefixos ou radicais terminam em vogal, e a palavra seguinte também começa por vogal, ocorre uma das duas possibilidades: 1) cai a vogal do primeiro termo e preserva-se a do segundo: psicastenia (psico + astenia), pseudencéfalo (pseudo + encéfalo), autarquia (auto + arquia) etc; 2) mantêm-se as duas vogais (agora sem a necessidade do hífen, que aparecia eventualmente): autoanálise (auto + análise), pseudoaleatório (pseudo + aleatório), contrairritação (contra + irritação) etc. Há palavras em que ocorrem as duas possibilidades (hidrelétrica, hidroelétrica).
Não há nenhum caso na língua em que se mutile a palavra base, como ocorre em “Paralimpíada”. Quem não vê com estranheza essa grafia, deve também achar naturais as formas: psicostenia, pseudoncéfalo, autorquia, autonálise, pseudoleatório, contrarritação etc. Isso é português?
Sei que a mutilação esdrúxula tem razões políticas e, segundo dizem, ocorreu por influência do inglês. Isso é pouco para que se estropie a mais natural e legítima instituição de um povo. Felizmente tem havido resistência; os sites do UOL e da Folha de São Paulo, por exemplo, grafam “Paraolimpíada” (conforme está no Aurélio). 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O conceito de "cenestesia"

E-mail de Flaviana M.: “Professor, podia me explicar o que é cenestesia? Agradeço antecipadamente.”
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O termo “cenestesia” designa as impressões sensoriais internas do organismo. Na linguagem literária, qualifica um tipo de imagem referente à sensação de sentir-se bem ou mal.
Imagens cenestésicas são comuns na poesia de Augusto dos Anjos, cujo sentimento de culpa o faz comumente referir um desconforto físico ou psicológico.
Geralmente são imagens de “peso” ou “carga”, como mostram os exemplos seguintes: “Eu me encolhia todo como um sapo/ que tem um peso incômodo por cima” (Cismas do Destino), “Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis” (Mistérios de um Fósforo), “Tenho trezentos quilos no epigastro” (Tristezas de um Quarto-Minguante).


sábado, 27 de agosto de 2016

Sobre a locução "em que pese a"

E-mail de Benedito L.: Professor, gostaria de saber se a frase seguinte está correta: ‘É preciso um detalhamento do texto constitucional no que pese à definição de áreas públicas’. Obrigado.”
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        Está não, Benedito. A locução  “em que pese a” (e não “no que pese a”), tem valor concessivo. Indica uma oposição ou uma ressalva ao que está expresso no enunciado principal.
       De acordo com o contexto, a definição de políticas públicas não se opõe ao detalhamento do texto constitucional. É um tópico, ou um assunto, a ser detalhado.
Conectivos que traduzem essa ideia são “quanto”,  “no que diz respeito”, “no que tange a” etc. Qualquer um deles substitui adequadamente “em que pese a”.

         Abraço. 

domingo, 24 de julho de 2016

Sobre o verbo "repercutir"

E-mail de M. C.: “Professor, como fica a conjugação do verbo ‘repercutir’ quando indica ressonância ou produção de efeito? É correto dizer ‘vou repercutir a notícia’?”
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O verbo "repercutir" é transitivo direto com o sentido de “refletir, reproduzir som ou luz”. Por exemplo: “O som da festa repercutia (refletia-se, reproduzia-se) nas áreas privativas do condomínio”; “A luz do crepúsculo repercutia as cores do vitral”. Quando significa “causar impressão generalizada” (Houaiss), esse verbo é intransitivo ou pronominal: “O pronunciamento do ministro da Educação repercutiu(-se) positivamente nas universidades.”
        Em “Vou repercutir a notícia”, o sentido que o verbo tem é o de causar impressão. Logo, ele aparece como intransitivo; “a notícia”, sendo o sujeito, é que repercute. A possibilidade de tornar esse verbo causativo (vou fazer repercutir notícia, ou seja, fazer com que a notícia repercuta) parece forçada e não soa bem. No exemplo que você nos manda, o melhor é dizer: “Vou dar repercussão à notícia.”
Abraço.

domingo, 19 de junho de 2016

Regência do verbo "poupar"

E-mail de Mário F.: “Caro Professor, boa tarde. Gostaria de contar, mais uma vez, com seu precioso esclarecimento a respeito do emprego do verbo poupar nas seguintes frases:
1. Poupa o leitor da maçada de perder-se no que escreves.
2. Poupa ao leitor a maçada de perder-se no que escreves.
Minha dúvida é: qual das duas está correta e, se ambas estiverem, qual seria a mais adequada, literariamente falando. Na expectativa de sua resposta, receba meus antecipados agradecimentos”
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Caro Mário, o verbo "poupar", como bitransitivo, admite as duas construções. Pode-se “poupar alguém de alguma coisa” ou “poupar a alguém alguma coisa”. Segundo o Houaiss, no primeiro caso o sentido é o de “proteger(se) de esforços, de trabalhos pesados ou de choques emocionais”. Por exemplo: “Protegeu a mulher das agressões da vizinha”. No segundo, ainda segundo o mesmo dicionário, o sentido é o de “fazer com que não despenda; evitar, reduzir, diminuir”. Exemplificando: “O professor poupa trabalho aos alunos”.  
Considerando essas duas acepções, parece-me que a mais adequada a sua frase é: “Poupa o leitor da maçada de perder-se no que escreves.”

Abraço.