sexta-feira, 26 de abril de 2019

Diferença entre homonímia e polissemia


        Na frase "A pata estava com sua pata esquerda machucada" existe homonímia ou polissemia? Poderia me esclarecer melhor com conceitos e exemplos? Muito obrigado!
Raimundo Gomes
****

Alô, Raimundo. 
A polissemia consiste na variedade de significações de uma palavra. Entre os inúmeros sentidos de “coroa”, por exemplo, estão o de 1) objeto que os reis portavam (ou portam) na cabeça para indicar soberania e nobreza; 2) parte do dente revestida de esmalte; 3) mulher de idade avançada.   
A homonímia é a coincidência de forma entre palavras devido, em grande parte, a mudanças fonéticas. Como têm origens distintas, os homônimos pertencem na grande maioria das vezes a classes gramaticais diferentes. Por exemplo: “venda”, substantivo que designa a faixa de pano com que se cobrem os olhos, é homônimo de “venda”, 1ª ou 3ª pessoa do verbo “vender”.
São também homônimos “pata”, feminino de pato, e “pata”, “cada um dos apêndices do animal usado para sustentação e locomoção” (Houaiss).  A origem de “pato” é presumivelmente onomatopaica, ou seja, deveu-se à tentativa de imitar determinado som – no caso, o grasnar dessa ave (o povo parece que gosta de fazer onomatopeias com as consoantes “p” e “t”; veja o caso de “patati” - “patatá”). O curioso é que o homônimo desse vocábulo que representa o aparelho locomotor também tem origem onomatopaica; nasceu do propósito de imitar “o ruído do animal em marcha”.

Dúvida sobre ambiguidade


         "A mãe bateu na filha porque estava BÊBADA.” Quem estava bêbada? Esse é um caso de ambiguidade?
Hégina Lima
****

         Alô, Hégina.

        Nessa frase ocorre elipse do sujeito da segunda oração. A elipse, sendo a omissão de um termo facilmente subentendido, promove em alguns casos a coesão textual sem que se precise fazer referência ao elemento mencionado.
       Se digo, por exemplo, “Maria acabou o namoro com João porque era intolerante”, não há como interpretar que o intolerante era João. Caso eu pretendesse dizer isso, marcaria o novo referente (com um pronome, por exemplo): “Maria acabou o namoro João porque ele era intolerante.” Na sua frase “a mãe” figura, por elipse, como sujeito do verbo “estar” – e nesse caso não haveria ambiguidade.
        Há no entanto quem veja diferente e ache que, justamente por constituir uma “lacuna”, a elipse dá margem a mais de uma interpretação. O contexto e o sentido da frase têm influência nisso. O senso comum, bem como a situação descrita, nos faz pensar que a filha e não a mãe é quem tinha “enchido a cara”.
        Diante disso, o melhor é marcar o sujeito da oração seguinte. Com o pronome “ela”, por exemplo: “A mãe bateu na filha porque ela estava bêbada.” Mas veja que, diferentemente da frase anterior (sobre “Maria” e “João”, que é masculino), o pronome “ela” pode instaurar ambiguidade (“ela” quem?). Como nunca é demais ser claro, o melhor então seria retomar “a filha” por meio de um hiperônimo: “A mãe bateu na filha porque a garota estava bêbada”. Abraço.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Botando o pingo no "i"


Gostaria, se possível, de um esclarecimento: omitir da letra “i” o pingo consistiria em transgressão gramatical? Em outras palavras, provas oficiais podem penalizar nesse caso?
Grato, Daniel W. (Limeira/SP)
****
         Alô, Daniel. 

       O chamado pingo do “i” é uma convenção que acompanha essa letra. Como toda convenção, deve ser respeitada. Omiti-lo seria praticar um desvio ortográfico. Seria como retirar a cedilha do “c”.
       A cedilha, como se sabe, aparece embaixo da letra “c” para diferenciar a consoante sibilante (ca/ç/a) da gutural (bo/c/a); há uma razão prática para colocá-la. Há também uma razão prática para colocar o pingo sobre o “i”: distingui-lo, quando duplicado, da letra “u” (essa duplicação era muito comum no latim).
        O curioso é que o Acordo Ortográfico fez com que o risco de haver confusão deixasse em parte de existir. Geralmente a duplicação ocorre quando se liga um prefixo terminado por ‘i” a um radical iniciado por essa letra. O Acordo estabelece que, nesses casos, se desfaça a junção por  meio do hífen. Diante disso não há mais como confundir, por exemplo, “anti-inflamatório” com “antunflamatório. Abraço.

Uso do hífen na translineação (mudança de linha)


Professor, se estou fazendo uma redação... e termina a linha estou escrevendo uma palavra com hífen... na outra linha vou terminar de colocar essa palavra devo começar de novo com mais um hífen???
Leny Fontinelle
****
        Alô, Leny.          

       Deve pôr o hífen, sim. O objetivo dessa repetição é preservar a ortografia.  A razão é simples. Na chamada translineação (o nome técnico para a divisão silábica), usa-se já um hífen para introduzir o segundo “pedaço” da palavra. Por exemplo: se separo “obscuro” a partir da primeira sílaba, na linha seguinte o restante desse vocábulo deve ser antecedido de um hífen (-curo).
       Suponha agora que você vá separar os componentes de “dedo-duro”.   Trata-se de um composto, por isso os dois radicais que o formam são ligados por hífen (lembro que não ocorreria hífen se houvesse um elemento de ligação entre os dois radicais, como em “pé de moleque”). No fim da linha, então, você escreve “dedo-”. Mas esse hifenzinho que está aí não caracteriza o composto. Indica apenas que a escrita da palavra se prolonga na linha seguinte.  Se no início dessa linha você não repetir o hífen, dará a entender que a grafia da palavra é “dedoduro” (que não existe).  
         Lembre-se de que a repetição do hífen também ocorre quando formas verbais são seguidas por pronomes oblíquos átonos (na chamada ênclise). Caso você separe o verbo do pronome numa forma verbal como “deu-me”, terá que usar hífen tanto após o verbo, quanto antes do pronome na linha seguinte (deu- -me).
       

domingo, 5 de novembro de 2017

A locução "pessoa humana" é um pleonasmo vicioso?

         Essa locução constitui um pleonasmo, mas ele não é vicioso. O pleonasmo vicioso indica desconhecimento do sentido das palavras; quem fala em “breve alocução” parece desconhecer que alocução é um “discurso breve”. O mesmo ocorre em expressões como “elo de ligação”.
         O critério mais importante para considerar vicioso o pleonasmo é a ausência de efeito expressivo. Nesse tipo de construção, o acréscimo semântico em nada realça ou intensifica o sentido do outro termo.
         Pelo critério puramente semântico, “pessoa humana” seria um pleonasmo vicioso. Um dos sentidos de “pessoa”, conforme o dicionário, é o de ser “humano” (e poucos desconhecem isso. A prova de que não  desconhecem é a percepção de que nessa locução existe um pleonasmo)  
           Já pelo critério estilístico, o acréscimo do adjetivo “humano” tem um grande peso (o que não ocorre quando se acrescenta a “alocução” o adjetivo “breve”; ou, a elo, o atributo “de ligação”).
         Em “pessoa humana”, a humanidade da pessoa é reiterada para encarecer uma qualidade que essencialmente a caracteriza. Existe um tipo de pleonasmo cuja função é fazer isto sobretudo no plano material; é o “epíteto de natureza”, que aparece em locuções como “gelo frio”, “noite escura”, “cadáver mudo”. Ele nada tem de vicioso.
         O epíteto de natureza lembra o chamado “argumento de presença”, pelo qual se reitera o óbvio por considerá-lo às vezes esquecido. O argumento de presença é, no plano da argumentação, o que o epíteto de natureza é no plano semântico (ou, mais propriamente, estilístico). Enfatiza traços próprios, essenciais, que são por vezes negligenciados.
         É importante vez por outra lembrar que uma pessoa é humana, ou seja, que por sua humanidade ela se configura como tal. Nem todos têm sempre isso em mente. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

A locução "tanto... quanto"

E-mail de Mário F.: “Professor, queria saber se esta frase está correta: ‘Uma caminhada longa é eficaz tanto quanto uma corrida’. Obrigado.” 
                                  ****

   Está não. O problema se encontra no uso de “tanto quanto”, que aparece indevidamente no lugar de “como” (Uma caminhada longa é eficaz como uma corrida).

       Caso você queira quantificar o valor dos adjetivos, o par correlativo adequado é “tão... quanto” e seus membros devem vir separados: “Uma caminhada longa é tão eficaz quanto uma corrida.”

segunda-feira, 13 de março de 2017

Regência de "concordar" e "discordar"

E-mail de Vespasiano G.: “Professor, os verbos ‘concordar’ e discordar’ têm a mesma regência? É certo dizer que alguém discorda ‘com’ alguém ou alguma coisa? Obrigado.”
                                ****
Caro Vespasiano, “concordar” e “discordar” são transitivos indiretos mas introduzem complementos por meio de preposições diferentes.
Os prefixos que antecedem os radicais desses verbos (com, dis) já orientam quanto a isso; concorda-se “com” e discorda-se “de”.
      Deve-se então dizer: “Concordo com as medidas tomadas pelo governo” ou “Discordo das medidas tomadas pelo governo”.
          
      A ideia de “discordar com” é acessória; aparece para indicar que alguém não discorda sozinho de alguma coisa. Por exemplo: “Discordo com você das palavras do presidente sobre as mulheres.”