terça-feira, 5 de setembro de 2023

 

O leitor L. quer saber como diferenciar o ‘porque’ explicativo do ‘porque’ causal.  

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Caro L., às vezes fica mesmo difícil distinguir um conectivo do outro. Duas dicas podem ajudar:

1 – Quando ocorre oração explicativa, o verbo da oração inicial (não se fala em “oração principal” na coordenação) está geralmente no imperativo. Exemplo: “Respeite a lei, porque isso lhe trará tranquilidade.”

Se faço um apelo a que o indivíduo respeite a lei, ele ainda não a respeitou; logo, a oração seguinte não pode constituir a causa de uma ação não realizada.

2 – Caso o verbo da oração anterior não esteja no imperativo, é preciso observar se a oração iniciada pela conjunção constitui efetivamente uma causa do que está expresso na oração principal – ou se não se trata, simplesmente, de uma explicação para o que foi dito.

Se digo, por exemplo, “Choveu, porque as ruas estão encharcadas”, é claro que o encharcamento das ruas não pode ser causa da chuva. 

Primeiro, porque esse encharcamento seria posterior à ação de chover (e toda causa, como se sabe, antecede a consequência); segundo, porque outro motivo pode ter determinado o alagamento dessas vias – como, por exemplo, o transbordamento de um rio ou o rompimento do tanque de um caminhão-pipa.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Confusão entre "guarita" e "guarida"

 

“O que é bom para a população nem sempre encontra guarita por parte dos governantes” (Redação de aluno)

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          Na passagem acima, o aluno empregou erradamente a palavra “guarita”.

          Confundiu-a com o seu parônimo “guarida”, que significa “abrigo, covil de animais selvagens” – e, metaforicamente, “acolhimento”. Ele queria dizer que os governantes nem sempre acolhem aquilo que interessa à população.

         “Guarita”, vocábulo mais comum, é uma pequena construção destinada a abrigar, vigias, sentinelas e agentes de segurança.  

           A tal equívoco não se pode dar guarida. 

sábado, 12 de agosto de 2023

Sobre o plural de "refrão" e a pronúncia de "refolhos"

         

        A leitora D. Pinheiro envia-nos e-mail com duas perguntas. A primeira é sobre o plural de “refrão”; ela quer saber se o correto é “refrões” ou “refrãos”.  A segunda é quanto à pronúncia do primeiro “o” em “refolhos” (plural de “refolho”).

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Cara leitora, “refrão” admite dois plurais: refrãos e refrães. Embora seja comum à maioria das palavras que terminam em “ão”, a terminação “ões” não aparece no plural desse vocábulo. 

“Refolho” significa “dobra, folho sobreposto a outro”. Metaforicamente, quer dizer “fingimento, dissimulação”. Segundo Napoleão Mendes de Almeida, em seu “Dicionário de Questões Vernáculas”, seu plural é com o “o” fechado /refôlhos/.

Usada no plural, “refolhos” tem ainda o sentido de “as partes mais profundas, mais secretas da alma”.

Até a próxima.  


quinta-feira, 29 de junho de 2023

Sobre "mula sem cabeça"


Professor, tenho uma dúvida. A palavra "mula sem cabeça" é uma locução substantiva? Então é sem hífen, correto? (LA)

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"Mula sem cabeça" é um composto, não uma locução. O sentido global dessa palavra é distinto do sentido das suas partes (não se trata de uma mula a que falte a cabeça, mas sim de um personagem do folclore). Como esse composto tem vocábulo de ligação (a preposição “sem”), não é mais escrito com hífen. 


sexta-feira, 8 de maio de 2020

A diferença entre "respirador" e "respiradouro"

                                 
    “Professor, tenho visto algumas pessoas usarem ‘respiradouros’ em vez de ‘respiradores’. Está correto?”
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Os dois vocábulos existem, mas não se equivalem. Dá-se o nome de “respiradores” aos aparelhos que facilitam a ventilação pulmonar em pacientes com os pulmões amplamente comprometidos por inflamação ou infecção. Esses equipamentos são vitais, conforme temos acompanhado pela mídia, na atual pandemia provocada pelo coronavírus.
Já “respiradouros” são os orifícios que permitem a entrada ou saída do ar em recintos ou aparelhos fechados. Eles devem aparecer em ambientes onde há botijões de gás ou dispositivos em que o gás entra em combustão e libera monóxido de carbono (como os chuveiros elétricos).
        É comum se usar “respiradouro” metaforicamente, dando-lhe o sentido de algo ou alguém que constitui um alívio em situações opressivas.   

sexta-feira, 27 de março de 2020

“Está correto dizer que alguém testou positivo para o coronavírus?”


Tenho lido críticas a essa construção com base em que o indivíduo que se submete à prova para a detecção do vírus “não testa”, “é testado”. O correto seria então dizer algo como “o teste a que o indivíduo se submeteu deu positivo”.  
        Os que alegam isso esquecem que um dos sinônimos de “testar” é “atestar”, ou seja, comprovar através de testemunho ou de procedimento técnico. Em “testar positivo” o que se afirma, por aférese (supressão da sílaba inicial) é “(a)testar positivo”.
       Caso essa explicação não convença (a mim satisfaz), lembro que são comuns em Português construções ativas com sentido passivo. Esse tipo de mudança tem um nome, enálage, que é a alteração de categoria gramatical (modo, tempo, flexão etc.).
         Por enálage é possível, como observa Zélio dos Santos Jota em seu Dicionário de Linguística, “haver passividade sem que haja voz passiva, e vice-versa”. “Testar” com o sentido de “ser testado” não foge à índole da língua.
        Diante disso, não há por que considerar erro a afirmação de que alguém “testou positivo” para o coronavírus.