quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Sobre o vocábulo "mais"

    

    

    Alô, professor Chico! Meu professor de português disse que “mais” jamais poderia ser pronome indefinido. É sempre advérbio de intensidade. Isso contraria o que vi em mais de uma gramática, então gostaria do seu posicionamento sobre o assunto. 

Atenciosamente, 

Walter B. Lins

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    Alô, Walter. Isso não é verdade. “Mais” pode, sim, ser pronome indefinido; nesse caso, aparece modificando substantivo. Veja dois exemplos que atestam as diferentes classificações: 

1. “Depois da cirurgia de catarata, passei a ver mais.” 

2. “Aos domingos vejo mais pessoas no cinema, em relação às poucas que vejo nos dias de semana.”

Em 1, “mais” intensifica o valor do verbo; é, pois, advérbio de intensidade. Em 2, ele quantifica o sentido  do substantivo “pessoas”. Nesse caso, opõe-se a "menos", “poucas”, e se classifica como pronome indefinido. 

    Abraço! 

sábado, 11 de novembro de 2023

 


Do amigo, professor e escritor João Batista B. de Brito recebi o texto abaixo, a que respondo em seguida:

 

Oi, Chico, bom dia.

Vez ou outra me ocorrem questões de gramática que me incomodam, e então, fico com vontade de partilhar com você, que é o nosso guardião competente e incansável da língua culta.

Uma delas é a seguinte. De uns tempos pra cá, venho notando como as pessoas andam engolindo as preposições em certa construção frasal, isto de uma forma quase sistemática.

Veja bem. Todo mundo diz, por exemplo, “gosto do filme”, mas, ao mudar a construção usando o relativo “que”, fica assim: “o filme que gosto”. Idem para: “O caso que me referi”, “A pessoa que falei”, etc, etc, etc... E esse uso não vem ocorrendo só entre pessoas simples, mas entre gente chique (até locutores e repórteres já ouvi falando assim). E o fato ocorre tanto em nível oral, como na escrita, principalmente na escrita eletrônica.

Na verdade, o desaparecimento da preposição nesse tipo de estrutura sintática é tão genérico que fico me indagando se não seria o caso de se pensar em “normalizar” esse uso, talvez – quem sabe? – aceitando-o na língua culta como alternativo.

Gostaria de ter uma opinião sua sobre a questão. Se pudesse ser na sua página do Facebook, melhor ainda, pois o problema pode interessar a outras pessoas, inclusive a seus alunos. Abraço grande de seu amigo e admirador.

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Alô, João! Grato pelo “guardião competente e incansável da língua culta”. Digamos que me esforço para fazer a garotada seguir a língua-padrão rsrs. 

Por sinal, as construções que você aponta constituem um tipo de infração a ela. A cartilha do Enem, por exemplo, é clara quanto a isso; os pronomes relativos devem, se for o caso, vir antecedidos das preposições que marcam a regência verbal.

Não posso dizer, por exemplo, “Os livros que gosto são os de aventura”, pois o verbo “gostar” é transitivo indireto. 

Mas o fato é que, por desconhecimento da regência ou pela lei do menor esforço, tem havido muito desrespeito a essa recomendação — inclusive no nível culto. 

Possivelmente com o tempo (já que língua é uso), a preposição deixará de aparecer. Enquanto isso não ocorre, ela deve constar caso se exija o emprego do registro formal. 

No discurso coloquial, informal, a liberdade é maior. Não é raro em textos publicitários, que tendem a privilegiar o tom coloquial, a gente ler frases como: “A solução que você precisa”. Convenhamos em que ela soa melhor e tem mais apelo do que o claudicante “de que você precisa”. 

Grande abraço! A admiração é recíproca. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Uso de "o mesmo"



Professor, na frase: "Ontem encontrei um velho amigo, e o mesmo me disse que não se casou", está correto o uso de 'o mesmo'"? L.T.

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Não está. "Mesmo" (e flexões) não é pronome pessoal. Aparece como adjetivo (“Lê sempre o mesmo livro”), substantivo (“Na semana anterior, tinha ocorrido o mesmo com ele”) e pronome de valor demonstrativo (“Ele não muda; é sempre o mesmo de outros carnavais”). Não sendo pronome pessoal, "mesmo" (e flexões) não equivale às formas “ele”, “ela”, “eles” “elas”. 




terça-feira, 5 de setembro de 2023

 

O leitor L. quer saber como diferenciar o ‘porque’ explicativo do ‘porque’ causal.  

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Caro L., às vezes fica mesmo difícil distinguir um conectivo do outro. Duas dicas podem ajudar:

1 – Quando ocorre oração explicativa, o verbo da oração inicial (não se fala em “oração principal” na coordenação) está geralmente no imperativo. Exemplo: “Respeite a lei, porque isso lhe trará tranquilidade.”

Se faço um apelo a que o indivíduo respeite a lei, ele ainda não a respeitou; logo, a oração seguinte não pode constituir a causa de uma ação não realizada.

2 – Caso o verbo da oração anterior não esteja no imperativo, é preciso observar se a oração iniciada pela conjunção constitui efetivamente uma causa do que está expresso na oração principal – ou se não se trata, simplesmente, de uma explicação para o que foi dito.

Se digo, por exemplo, “Choveu, porque as ruas estão encharcadas”, é claro que o encharcamento das ruas não pode ser causa da chuva. 

Primeiro, porque esse encharcamento seria posterior à ação de chover (e toda causa, como se sabe, antecede a consequência); segundo, porque outro motivo pode ter determinado o alagamento dessas vias – como, por exemplo, o transbordamento de um rio ou o rompimento do tanque de um caminhão-pipa.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Confusão entre "guarita" e "guarida"

 

“O que é bom para a população nem sempre encontra guarita por parte dos governantes” (Redação de aluno)

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          Na passagem acima, o aluno empregou erradamente a palavra “guarita”.

          Confundiu-a com o seu parônimo “guarida”, que significa “abrigo, covil de animais selvagens” – e, metaforicamente, “acolhimento”. Ele queria dizer que os governantes nem sempre acolhem aquilo que interessa à população.

         “Guarita”, vocábulo mais comum, é uma pequena construção destinada a abrigar, vigias, sentinelas e agentes de segurança.  

           A tal equívoco não se pode dar guarida. 

sábado, 12 de agosto de 2023

Sobre o plural de "refrão" e a pronúncia de "refolhos"

         

        A leitora D. Pinheiro envia-nos e-mail com duas perguntas. A primeira é sobre o plural de “refrão”; ela quer saber se o correto é “refrõesourefrãos”.  A segunda é quanto à pronúncia do primeiro “o” em “refolhos” (plural de “refolho”).

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Cara leitora, “refrão” admite dois plurais: refrãos e refrães. Embora seja comum à maioria das palavras que terminam em “ão”, a terminação “ões” não aparece no plural desse vocábulo. 

“Refolho” significa “dobra, folho sobreposto a outro”. Metaforicamente, quer dizerfingimento, dissimulação”. Segundo Napoleão Mendes de Almeida, em seuDicionário de Questões Vernáculas”, seu plural é com o “o” fechado /refôlhos/.

Usada no plural, “refolhos” tem ainda o sentido de “as partes mais profundas, mais secretas da alma”.

Até a próxima.  


quinta-feira, 29 de junho de 2023

Sobre "mula sem cabeça"


Professor, tenho uma dúvida. A palavra "mula sem cabeça" é uma locução substantiva? Então é sem hífen, correto? (LA)

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"Mula sem cabeça" é um composto, não uma locução. O sentido global dessa palavra é distinto do sentido das suas partes (não se trata de uma mula a que falte a cabeça, mas sim de um personagem do folclore). Como esse composto tem vocábulo de ligação (a preposição “sem”), não é mais escrito com hífen. 


sexta-feira, 8 de maio de 2020

A diferença entre "respirador" e "respiradouro"

                                 
    “Professor, tenho visto algumas pessoas usarem ‘respiradouros’ em vez de ‘respiradores’. Está correto?”
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Os dois vocábulos existem, mas não se equivalem. Dá-se o nome de “respiradores” aos aparelhos que facilitam a ventilação pulmonar em pacientes com os pulmões amplamente comprometidos por inflamação ou infecção. Esses equipamentos são vitais, conforme temos acompanhado pela mídia, na atual pandemia provocada pelo coronavírus.
Já “respiradouros” são os orifícios que permitem a entrada ou saída do ar em recintos ou aparelhos fechados. Eles devem aparecer em ambientes onde há botijões de gás ou dispositivos em que o gás entra em combustão e libera monóxido de carbono (como os chuveiros elétricos).
        É comum se usar “respiradouro” metaforicamente, dando-lhe o sentido de algo ou alguém que constitui um alívio em situações opressivas.   

sexta-feira, 27 de março de 2020

“Está correto dizer que alguém testou positivo para o coronavírus?”


Tenho lido críticas a essa construção com base em que o indivíduo que se submete à prova para a detecção do vírus “não testa”, “é testado”. O correto seria então dizer algo como “o teste a que o indivíduo se submeteu deu positivo”.  
        Os que alegam isso esquecem que um dos sinônimos de “testar” é “atestar”, ou seja, comprovar através de testemunho ou de procedimento técnico. Em “testar positivo” o que se afirma, por aférese (supressão da sílaba inicial) é “(a)testar positivo”.
       Caso essa explicação não convença (a mim satisfaz), lembro que são comuns em Português construções ativas com sentido passivo. Esse tipo de mudança tem um nome, enálage, que é a alteração de categoria gramatical (modo, tempo, flexão etc.).
         Por enálage é possível, como observa Zélio dos Santos Jota em seu Dicionário de Linguística, “haver passividade sem que haja voz passiva, e vice-versa”. “Testar” com o sentido de “ser testado” não foge à índole da língua.
        Diante disso, não há por que considerar erro a afirmação de que alguém “testou positivo” para o coronavírus.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Sobre os verbos terminados em "guar", "quar", "guir" e "quir"


Bom dia, caro professor, já agradecendo sua enorme disponibilidade para dirimir dúvidas sobre a língua portuguesa, estou aqui com um impasse. Sabemos que há variação na pronúncia dos verbos terminados em GUAR, QUAR e QUIR, como aguar, obliquar, delinquir. sabemos ainda que se forem pronunciados com "A" ou "I" tônicos, essas formas devem ser acentuadas, como em ENXÁGUO, DELÍNQUO. Mas se forem pronunciados com "U" tônico, deixam de ser acentuados, como em "enxagUo", "delinqUa". Pois bem, minha dúvida é a seguinte: No caso de se pronunciar com "U" tônico, como são consideradas oxítonas, e sabendo-se que o "A" sempre será vogal e que não existe mais de uma vogal na mesma sílaba, como se resolve esse impasse, pois o "U" é tônico? Nos dois casos elas são paroxítonas ou apenas quando são ecentuadas?

Raimundo Gomes
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         Alô, Raimundo!  

      As formas verbais a que você se refere apresentam, de fato, mais de uma pronúncia e mais de uma grafia. É importante ressaltar que isso ocorre apenas nas chamadas formas rizotônicas do presente do indicativo e do subjuntivo (uma forma rizotônica é aquela em que a sílaba tônica está contida no radical, ou seja, na parte do vocábulo que contém o sentido).
      Assim, pode-se pronunciar (e escrever) “enxaguo” ou “enxáguo”, “delinquo” ou delínquo. Em “enxaguo” e “delinquo”, o “u” é vogal tônica na penúltima sílaba (em-xa-gu-o, de-lin-qu-o); antes da Reforma esse “u” recebia um acento agudo. 
     Já em “enxáguo” e “delínquo”, o “u” aparece como semivogal de um ditongo crescente (en-xá-guo, de-lín-quo). Nesse caso, para que se mantenha o ditongo e as vogais “u” e “o” não formem hiato, marca-se com acento agudo a penúltima sílaba.
      Não entendi bem sua dúvida. Você afirma que, no caso de o “u” ser  tônico, o vocábulo passa a oxítono. Não é verdade; ele se mantém como um paroxítono. Depois você sugere que a letra “a” (obviamente em “enxaguo”) faria parte de um ditongo. O “a” nada tem a ver com o grupamento vocálico final, que como se viu constitui um hiato. 
      Não sei se deu para esclarecer. Caso suas dúvidas persistam, não hesite em escrever novamente.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A posição do sujeito na ordem direta


Professores como colocar a oração na ordem direta sem saber o sujeito?ou tipo quando agora oração é muito longa qual forma eficaz de achar o sujeito.

Michael Alves

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Alô, Michael!

         E impossível colocar uma oração na ordem direta sem conhecer o sujeito.   O motivo é simples: a ordem direta é aquela em que o sujeito encabeça o enunciado oracional. Consiste, grosso modo, em você enfileirar os termos na sequência “sujeito + verbo + mais complemento (objeto) + mais adjunto adverbial”.
         Isso leva à segunda parte da sua questão: como identificar o sujeito. Uma dica é fazer as perguntas “quem é que” ou o “que é que”. Vou dar um exemplo com um tipo de frase em que geralmente há dificuldade de proceder a essa identificação: “Cabe aos professores a luta por melhores condições de ensino”.  Qual o sujeito? Vamos à pergunta: o que é que cabe aos professores? Resposta: “a luta por melhores condições de ensino”. Na ordem direta, a frase fica assim: “A luta por melhores condições de ensino cabe aos professores.”  
         Lembre-se de que o sujeito é o termo ao qual o verbo se refere e, por isso, deve (o verbo) concordar com ele (sujeito). Numa frase como “Deu trabalho as buscas pelos sobreviventes do naufrágio”, a flexão de “deu” no singular está errada – e você já é capaz de me dizer por quê. Deve ter feito a pergunta que indiquei acima: “o que é que deu trabalho?” As buscas, claro. Logo, “deram trabalho as buscas pelos sobreviventes no naufrágio”. Na ordem direta, o termo “as buscas” encabeça a frase.

domingo, 23 de junho de 2019

Sobre a impessoalidade (e a pessoalidade) do verbo "haver"


Professor como saber se o verbo haver tem o sentido de 'ocorrer” e “existir” que nesse caso ele é impessoal e quando ele não tem o sentido de 'ocorrer” e “existir” que ele não é impessoal.

Rodrigo Sampaio
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       Alô, Rodrigo!

O contexto é que mostra em qual sentido esse verbo está usado e, consequentemente, se o seu emprego é pessoal ou não. As acepções em que há sujeito vinculam-se à ideia de “ter” (obter) ou “experimentar” (lembre-se  de que é possível substituir o verbo “ter” por “haver” nos chamados tempos compostos). Dois exemplos do emprego pessoal: “Ninguém houve notícias da prisão do traficante”; “Os meninos houveram muito medo de entrar na caverna”. São construções raras e praticamente abolidas do registro coloquial, em que há larga prevalência do verbo “ter”.
“Haver” também é pessoal quando vem acompanhado de pronome (parte integrante do verbo); nesse caso, tem os sentidos de “portar-se,” “prestar contas”, “lidar”. Confira os respectivos exemplos: “Joaquim se houve bem no encontro social”; “Por não respeitar o regimento, vai-se haver com o diretor”; “É ruim ter que se haver com pessoas  temperamentais”.
A impessoalidade (ausência de sujeito) se dá quando esse verbo tem o sentido de “existir”, “ocorrer”, ou indica tempo decorrido.  Exemplos: “Há pessoas que não merecem o nosso respeito”; “Não haverá torneios na próxima estação”; “Há dias que ele não visita os pais”. Escrevi no plural os objetos diretos (pessoas, torneios, dias) a fim de chamar a atenção para a invariabilidade da flexão dos verbos, que ficam no singular por um motivo  óbvio: se não há sujeito, eles não têm com quem (ou com o quê) concordar.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O motivo do acento de "veículo"


        Professor qual a razão do acento de veículo? Há bancas que justificam o acento por ser uma palavra proparoxítona. Outras dizem que o motivo é existir uma vogal tônica de hiato. Gostaria, se possível, de um esclarecimento. Obrigada.
Luísa Torres
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       O acento de “veículo” não ocorre por nessa palavra haver um hiato. A função do acento na chamada vogal tônica dos hiatos é impedir que esses encontros vocálicos se transformem em ditongos.  Sem o acento, por exemplo, os vocábulos “sa-ú-de”, “ra-í-zes” e “mi-ú-do” têm a seguinte divisão silábica: “sau-de”. “rai-zes” e “miu-do”.  Ou seja, há ditongação das vogais. Essa possibilidade não existe em “veículo”. Caso se retire o acento, o hiato se mantém (ve-i-cu-lo), e a palavra passa a soar como um paroxítono. Assim, “veículo” se acentua unicamente por ser um vocábulo proparoxítono.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Dúvida sobre generalização a partir de uma questão da Vunesp



2019 VUNESPUma expressão que atribui à frase um tom de generalização está destacada entre parentes em: A Há que se dizer que culpar terceiros (sempre) nos traz alívio. (1º parágrafo) B (Um dos )maiores responsáveis por alagamentos nas cidades é o lixo... (2º parágrafo) C Nos dias de hoje coletamos informações (prontas)... (3º parágrafo) D ... cotidiano agitado e( quase) atropelado pelo que não nos afeta... (3º parágrafo) E ... quase atropelado pelo que não nos afeta tanto (por enquanto). (3º parágrafo)
Laura Silva
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          Bem-vinda, Laura.
          Generalizar é considerar que determinadas características ou ações se aplicam a todo um conjunto de pessoas. Pode constituir uma grave falha na argumentação, pois não leva em conta as possíveis exceções. Basta que uma delas ocorra para fazer o argumento ir por terra.
         Generalizar é também tratar subentendidos como pressupostos. Um exemplo: numa redação sobre o trabalho da mulher fora de casa, um de meus alunos se posicionou contra, alegando que esse tipo de atividade prejudica a educação dos filhos. Ele pressupôs como verdadeiro algo que subentendeu (apoiado numa visão machista, por exemplo), como se todo subtendido não dependesse de uma interpretação pessoal. Essa era a opinião dele, que não tinha o direito de generalizar.
          Já deu para você perceber que a resposta à questão está na letra “A”. O advérbio “sempre” dá como genérica e inevitável a afirmação de que pôr a culpa em terceiros nos traz alívio. Pode às vezes não trazer... A propósito, será que traz mesmo? A banca dá uma mãozinha quando apresenta na resposta uma formulação que é por si questionável do ponto de vista ético e existencial. Culpar terceiros não deixa de ser uma maneira de transferir aos outros as nossas responsabilidades.


Sobre o tipo de letra na redação



Olá, boa tarde! Gostaria de tirar uma dúvida
Minha dúvida é em relação à escrita na redação. Tipo, minha letra é misturada, eu utilizo tanto letras de computação como letras cursivas. Isso é proibido em redação? Existe uma norma que proíbe isso? (não sei se o nome que se dá a essas letras são essas que citei).
Michel Filipe 
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          Alô, Michel.

         A dúvida comum dos estudantes quanto à letra com que devem fazer a redação é se utilizam o cursivo ou a caixa-alta. A letra cursiva, como o nome diz, é a letra que corre. Com ela se produz a maior parte dos textos manuscritos. A caixa-alta corresponde à escrita com letras maiúsculas. As bancas aceitam os dois tipos; o importante é que o texto seja legível. Há pessoas que, ao escrever em cursivo, produzem garranchos que ninguém consegue entender (às vezes, nem elas próprias). Nesse caso, o melhor é usar a caixa-alta. Recomenda-se, no entanto, que o aluno sublinhe as letras que iniciam os períodos e as dos nomes próprios; afinal há normas para a escrita das maiúsculas, e o estudante deve mostrar que as conhece. 
        Chegamos à sua pergunta, que se refere a uma possibilidade nova: alternar letras cursivas com letras de computação. O Enem não emitiu nenhuma norma que impeça esse tipo de alternância (assim como, a exemplo dos outros concursos, não se manifesta quanto a o aluno usar a letra cursiva ou a de caixa-alta). Deduz-se que nesse exame os corretores aceitam os diferentes tipos de letra. O importante, repita-se, é que o candidato se faça entender. A banca não pode ver com bons olhos os que tornam mais penoso o extenuante trabalho que já tem, e a má vontade decorrente disso certamente influirá no julgamento que fizer deles. O candidato deve escrever com legibilidade para garantir que o seu texto será lido e avaliado com justiça.

Diferença entre homonímia e polissemia


        Na frase "A pata estava com sua pata esquerda machucada" existe homonímia ou polissemia? Poderia me esclarecer melhor com conceitos e exemplos? Muito obrigado!
Raimundo Gomes
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Alô, Raimundo. 
A polissemia consiste na variedade de significações de uma palavra. Entre os inúmeros sentidos de “coroa”, por exemplo, estão o de 1) objeto que os reis portavam (ou portam) na cabeça para indicar soberania e nobreza; 2) parte do dente revestida de esmalte; 3) mulher de idade avançada.   
A homonímia é a coincidência de forma entre palavras devido, em grande parte, a mudanças fonéticas. Como têm origens distintas, os homônimos pertencem na grande maioria das vezes a classes gramaticais diferentes. Por exemplo: “venda”, substantivo que designa a faixa de pano com que se cobrem os olhos, é homônimo de “venda”, 1ª ou 3ª pessoa do verbo “vender”.
São também homônimos “pata”, feminino de pato, e “pata”, “cada um dos apêndices do animal usado para sustentação e locomoção” (Houaiss).  A origem de “pato” é presumivelmente onomatopaica, ou seja, deveu-se à tentativa de imitar determinado som – no caso, o grasnar dessa ave (o povo parece que gosta de fazer onomatopeias com as consoantes “p” e “t”; veja o caso de “patati” - “patatá”). O curioso é que o homônimo desse vocábulo que representa o aparelho locomotor também tem origem onomatopaica; nasceu do propósito de imitar “o ruído do animal em marcha”.

Dúvida sobre ambiguidade


         "A mãe bateu na filha porque estava BÊBADA.” Quem estava bêbada? Esse é um caso de ambiguidade?
Hégina Lima
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         Alô, Hégina.

        Nessa frase ocorre elipse do sujeito da segunda oração. A elipse, sendo a omissão de um termo facilmente subentendido, promove em alguns casos a coesão textual sem que se precise fazer referência ao elemento mencionado.
       Se digo, por exemplo, “Maria acabou o namoro com João porque era intolerante”, não há como interpretar que o intolerante era João. Caso eu pretendesse dizer isso, marcaria o novo referente (com um pronome, por exemplo): “Maria acabou o namoro João porque ele era intolerante.” Na sua frase “a mãe” figura, por elipse, como sujeito do verbo “estar” – e nesse caso não haveria ambiguidade.
        Há no entanto quem veja diferente e ache que, justamente por constituir uma “lacuna”, a elipse dá margem a mais de uma interpretação. O contexto e o sentido da frase têm influência nisso. O senso comum, bem como a situação descrita, nos faz pensar que a filha e não a mãe é quem tinha “enchido a cara”.
        Diante disso, o melhor é marcar o sujeito da oração seguinte. Com o pronome “ela”, por exemplo: “A mãe bateu na filha porque ela estava bêbada.” Mas veja que, diferentemente da frase anterior (sobre “Maria” e “João”, que é masculino), o pronome “ela” pode instaurar ambiguidade (“ela” quem?). Como nunca é demais ser claro, o melhor então seria retomar “a filha” por meio de um hiperônimo: “A mãe bateu na filha porque a garota estava bêbada”. Abraço.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Botando o pingo no "i"


Gostaria, se possível, de um esclarecimento: omitir da letra “i” o pingo consistiria em transgressão gramatical? Em outras palavras, provas oficiais podem penalizar nesse caso?
Grato, Daniel W. (Limeira/SP)
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         Alô, Daniel. 

       O chamado pingo do “i” é uma convenção que acompanha essa letra. Como toda convenção, deve ser respeitada. Omiti-lo seria praticar um desvio ortográfico. Seria como retirar a cedilha do “c”.
       A cedilha, como se sabe, aparece embaixo da letra “c” para diferenciar a consoante sibilante (ca/ç/a) da gutural (bo/c/a); há uma razão prática para colocá-la. Há também uma razão prática para colocar o pingo sobre o “i”: distingui-lo, quando duplicado, da letra “u” (essa duplicação era muito comum no latim).
        O curioso é que o Acordo Ortográfico fez com que o risco de haver confusão deixasse em parte de existir. Geralmente a duplicação ocorre quando se liga um prefixo terminado por ‘i” a um radical iniciado por essa letra. O Acordo estabelece que, nesses casos, se desfaça a junção por  meio do hífen. Diante disso não há mais como confundir, por exemplo, “anti-inflamatório” com “antunflamatório. Abraço.

Uso do hífen na translineação (mudança de linha)


Professor, se estou fazendo uma redação... e termina a linha estou escrevendo uma palavra com hífen... na outra linha vou terminar de colocar essa palavra devo começar de novo com mais um hífen???
Leny Fontinelle
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        Alô, Leny.          

       Deve pôr o hífen, sim. O objetivo dessa repetição é preservar a ortografia.  A razão é simples. Na chamada translineação (o nome técnico para a divisão silábica), usa-se já um hífen para introduzir o segundo “pedaço” da palavra. Por exemplo: se separo “obscuro” a partir da primeira sílaba, na linha seguinte o restante desse vocábulo deve ser antecedido de um hífen (-curo).
       Suponha agora que você vá separar os componentes de “dedo-duro”.   Trata-se de um composto, por isso os dois radicais que o formam são ligados por hífen (lembro que não ocorreria hífen se houvesse um elemento de ligação entre os dois radicais, como em “pé de moleque”). No fim da linha, então, você escreve “dedo-”. Mas esse hifenzinho que está aí não caracteriza o composto. Indica apenas que a escrita da palavra se prolonga na linha seguinte.  Se no início dessa linha você não repetir o hífen, dará a entender que a grafia da palavra é “dedoduro” (que não existe).  
         Lembre-se de que a repetição do hífen também ocorre quando formas verbais são seguidas por pronomes oblíquos átonos (na chamada ênclise). Caso você separe o verbo do pronome numa forma verbal como “deu-me”, terá que usar hífen tanto após o verbo, quanto antes do pronome na linha seguinte (deu- -me).